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19/03/2015 - Atualizado em 30/07/2016

É muito conhecido o jogo entre Corinthians e Tiradentes, o qual a equipe piauiense sofreu vergonhosa goleada de 10 a 1 no estádio do Canindé, em São Paulo. Goleada histórica, uma vez que é a maior de todos os Campeonatos Brasileiros. Mesmo com a unificação dos títulos nacionais em 2010, ainda assim nenhuma partida a supera. E embora a equipe masculina da Sociedade Esportiva Tiradentes tenha sido desativada, ainda hoje a vitória é vangloriada aos quatro ventos pelos corintianos e motivo de chacota do futebol piauiense.

O fato é que pouca gente lembra do primeiro jogo entre as duas equipes em Teresina valendo pelo mesmo torneio. Nem mesmo são citadas as circunstâncias que resultaram naquela goleada homérica, sem retirar, lógico, o mérito da equipe corintiana de 1983.

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Pôster do Tiradentes campeão piauiense de 1982 na revista Placar.
Foto tirada no campo do CFAP, no bairro Ilhotas.
Boa parte desses jogadores atuou na Taça de Ouro de 1983, inclusive nas duas partidas contra o Corinthians.
(Revista Placar/Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: Ademar Danilo dos Santos "Carioca")
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Um torneio confuso

Ao contrário de hoje, onde se vê um campeonato nacional enxuto com 20 clubes na divisão principal e contando ainda com três divisões de acesso, em 1983 disputaram um total de 40 clubes na Taça de Ouro (A denominação de Campeonato Brasileiro só surgiu em 1989 para se diferenciar da recém criada Copa do Brasil). Todos foram acomodados, na primeira fase, em oito grupos com cinco clubes cada. Havia ainda uma segunda e terceira fases, além de repescagem, quartas-de-final, semi-final, e, por fim, a final.

O critério utilizado para entrar no torneio foram os campeonatos estaduais. Os dois principais estaduais do Brasil tinham mais vagas na competição. Os cinco primeiros colocados dos Campeonatos Paulista e Carioca de 1982 ingressavam automaticamente na Taça de Ouro 1983. Dos Campeonatos Gaúcho, Mineiro, Paranaense, Cearense, Pernambucano, Goiano e Baiano entravam cada um com o campeão e o vice. Os demais estaduais somente o campeão. E aí entra o Tiradentes, campeão do Campeonato Piauiense de 1982 ao vencer o River por 3 a 1 no Albertão.

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Tiradentes campeão piauiense de 1982. O último em pé à direita é o médico do clube: Grimário de Oliveira.
Boa parte desses jogadores atuou na Taça de Ouro de 1983, inclusive nas duas partidas contra o Corinthians.
(Revista Placar/Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: Ademar Danilo dos Santos "Carioca")
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Soma-se a tudo acima uma competição paralela chamada Taça de Prata. Os clubes que não conseguiram se classificar para a Taça de Ouro nos seus respectivos estaduais acabaram entrando nesse torneio (O Ríver foi um deles). Entretanto, o Santos, que terminou em nono no Paulista de 1982, foi gentilmente acomodado na Taça de Ouro de 1983 e não na de Prata através de um tal "ranking histórico" criado - vejam só! - pela CBF especialmente naquele ano! O caso foi mais um entre os vários tapetões do futebol brasileiro.

Entravam também na Taça de Prata os times eliminados na primeira fase da Taça de Ouro 1983. O campeão e o vice (Juventus e CSA, respectivamente, nesse ano), além dos quatro melhores nas duas fases do torneio, garantiam vaga na Taça de Ouro 1984.

Tratava-se, como se vê, de um complicado, confuso e desgastante sistema criado em 1980 por Giulite Coutinho, presidente da CBF na época, em conjunto com os presidentes das federações que queriam garantir seus feudos no Nacional. Curiosamente, o formato, com algumas variações nos anos seguintes, só ruiu em outro conturbado torneio: o Campeonato Nacional de 1987, aquele mesmo da Copa União, dos módulos verde e amarelo.

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Lance da partida Tiradentes 2x1 Corinthians, no Albertão.
(30 de janeiro de 1983 / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: Carivaldo Marques)
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Antecedentes da partida: problemas e malote.

O Tiradentes ficou no grupo D da Primeira Fase ao lado de mais quatro clubes: CSA (AL), Fortaleza (CE), Corinthians (SP) e Fluminense (RJ). Grupo difícil, mas a imprensa local apostava na classificação da equipe da Polícia Militar do Piauí.

O início dos trabalhos do Tiradentes para a competição se deu em 06 de janeiro, mas com muitos problemas. O treinador Alberino de Paula (o "Bero") ainda não contava com as contratações solicitadas entre elas a do goleiro Edson Cimento, da Tuna Luso (PA) - a negociação não foi concluída. O goleiro Batista, o centro-avante Flávio (Jogou pelo clube em 1982, mas seu passe pertencia ao Treze de Campina Grande-PB) e o meia Hélio Rocha ainda não haviam renovado com o clube. Zuega e Baiano estavam no departamento médico e não atuaram na partida amistosa contra o River (Dia 17 de janeiro, no estádio Lindolfo Monteiro). E Wagner, Olivan, Joniel, Walter Piauí e Durval não estavam regularizados na CBF.

Somado aos problemas com jogadores, ainda existia a questão em torno de um tal malote em dinheiro que a antiga Federação Piauiense de Desportos havia prometido ao clube. O reflexo de tudo isso foi a estreia no Nacional: no primeiro jogo da Taça de Ouro o Tiradentes perdeu para o CSA em Maceió por 4 a 0 (Dia 23 de janeiro, no estádio Rei Pelé).

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Lance da partida Tiradentes 2x1 Corinthians, no Albertão.
(30 de janeiro de 1983 / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: Carivaldo Marques)
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Primeiro confronto: vitória cá.

A maioria dos jogadores do Tiradentes era proveniente do Piauí e das categorias de base do clube. Muitos deles jogaram ao lado da Seleção Piauiense de Juniores que foi vice-campeã no III Campeonato Brasileiro de Futebol, em 1981/82, ao perder no saldo de gols para a Seleção Gaúcha (1º jogo: RS 3 x 1 PI; 2º jogo: PI 2 x 1 RS) que tinha na equipe os jovens Dunga e Branco, futuros campeões do mundo em 1994. Era, portanto, um time relativamente jovem.

Já a equipe do Corinthians tinha jogadores experientes como o goleiro Solito, o folclórico Biro-Biro, o meia Zenon, o jovem atacante Casagrande (Com apenas 19 anos seria campeão Paulista no final de 1982 e artilheiro do torneio), e o meia Sócrates, que esteve ao lado da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Espanha.

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Casagrande e Sócrates desembarcando no aeroporto de Teresina.
(28 de janeiro de 1983 / Acervo digital Teresina Antiga / Fotos por: Carivaldo Marques)
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Vindo da cidade de Fortaleza após vitória de 3 a 1 diante do Fortaleza Esporte Clube no estádio Castelão, a delegação corintiana desembarcou confiante em Teresina às 11h40min, na sexta, 28 de janeiro, no Aeroporto Santos Dumont (Renomeado anos depois para Aeroporto Senador Petrônio Portella). A equipe fez seus treinamentos no estádio Lindolfo Monteiro sob o comando do técnico Mário Travaglini.

No antigo campo do CFAP (O "Canutão", pertencente à Polícia Militar do Piauí), o técnico Alberino de Paula encontrava outra vez dificuldades para escalar e treinar o time titular. Primeiro, por causa dos desfalques: o zagueiro Baiano (Por contusão) e o lateral esquerdo Roberto Café (Fratura no pé direito namistoso contra o River); e, principalmente, devido a jogadores irregulares na CBF.

O problema de atletas irregulares foi resolvido distante vários quilômetros dali. Na sede da CBF (Na época localizada na rua da Alfândega, cidade do Rio de Janeiro), o presidente do Tiradentes, Antônio Bento Vieira, conseguiu regularizar a situação de Joniel, Hélio Rocha, Durval, Olivan e Wagner. Estavam aptos para atuar diante do Corinthians, no domingo, dia 30 de janeiro, no estádio Albertão.

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Sabará marca de pênalti o 1º gol do Tiradentes no Albertão.
(30 de janeiro de 1983 / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: Carivaldo Marques)
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A partida iniciaria só às 17 horas, mas os portões do Albertão já estavam abertos desde o meio-dia! A torcida teresinense encheu o estádio para ver os astros do Corinthians (O Tiradentes nunca teve torcida numerosa). Foram colocados à venda 58 mil ingressos sendo para as cadeiras 1000 (Valor: 1 mil cruzeiros), geral 15 mil (Valor: 150 cruzeiros), arquibancada no sol 20 mil (Valor: 200 cruzeiros), arquibancada sombra 10 mil (Valor: 300 cruzeiros), e arquibancada coberta 7 mil para adultos e 5 mil para menores de 10 anos (Valor: 500 cruzeiros para adultos e 100 para as crianças menores de 10 anos). Mas só um pouco mais de 41 mil ingressos foram vendidos totalizando uma renda de quase 10 milhões de cruzeiros.

Lento e desorganizado, o Timão facilitou o trabalho do time piauiense na primeira etapa. Aos 34 minutos, Walter Piauí arranca pela ponta esquerda e na hora do cruzamento é derrubado pelo zagueiro corintiano Mauro na grande área. Penalidade máxima assinala o árbitro Wilson Carlos dos Santos, da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. O cearense Sabará cobra o pênalti no canto direito do goleiro Solito que cai no outro canto. Goleiro de um lado, bola do outro. Primeiro gol do Tiradentes.

Cinco minutos depois, o meia Hélio Rocha domina, sem marcação alguma, a bola após a metade do campo. Ajeita no pé esquerdo e dispara um chute violento no ângulo, no fundo das redes do goleiro Solito que reclamou bastante da defesa e dos meias do seu time. A torcida vai da surpresa ao delírio no Albertão.

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Jogadores comemoram o gol de Hélio Rocha, o 2º gol do Tiradentes no Albertão.
(30 de janeiro de 1983 / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: Carivaldo Marques)
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No segundo tempo os jogadores do Corinthians continuavam lentos. Casagrande foi implacavelmente marcado por Zuega e só deu um chute a gol durante todo o jogo. Zenon era o que mais levava perigo ao goleiro Batista com chutes longos. Os primeiros 15 minutos da segunda etapa a equipe alvinegra conseguiu três lances perigosos.

O Tiradentes passou a jogar na retranca para segurar o placar. Mas quando o Corinthians perdia a bola, Sabará, Zuega, Valter Maranhão e Hélio Rocha avançavam em um rápido contra-ataque.

Aos 27 minutos, uma confusão na grande área do Tiradentes e o árbitro assinala pênalti para o Corinthians. Um minuto depois, Sócrates converte a penalidade em gol.

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Lance da partida Tiradentes 2x1 Corinthians, no Albertão.
(30 de janeiro de 1983 / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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Nos vinte minutos finais o que se viu no Albertão foi um show de "cera" do Tiradentes e o Corinthians querendo a qualquer custo o empate. Em um dos avanços desesperados do alvinegro paulista, nos acréscimos da partida (Cinco minutos deu o árbitro), Joniel arranca perigosamente para marcar o terceiro, mas Wladimir para a jogada. Não havia mais tempo e o Corinthians sai do Albertão com a primeira derrota na Taça de Ouro.

O jogo Tiradentes x Corinthians foi gravado em videotape, assim como vários outros do clube em 1983 que estão disponíveis inclusive em sites de compartilhamento de vídeos. Os gols da partida foram exibidos na noite daquele domingo, 30 de janeiro, pelo programa Os gols do Fantástico (TV Globo). E o de Hélio Rocha foi escolhido como o mais belo da rodada (O gol mais bonito).

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Gols da partida Tiradentes 2 x 1 Corinthians, no estádio Albertão.
(30 de janeiro de 1983 / TV Globo / Acervo digital Teresina Antiga / Voz: Léo Batista)

Chacota, outros jogos, e outro goleiro.

A vitória em Teresina diante do Corinthians foi boa para a auto-estima do Tiradentes e também para o bolso dos jogadores. Cada um ganhou 20 mil cruzeiros (O treinador Alberino ficou com 40 mil), conforme havia prometido o presidente Antônio Bento Vieira antes da partida em caso de vitória.

Já para o Corinthians "foi uma lição", frase do técnico Mário Travaglini se referindo ao excesso de confiança de sua equipe. O jogador Paulo Egídio, que entrou no segundo tempo, reconheceu que o time não jogou sério. Anos mais tarde, o mesmo jogador muda o discurso. Em entrevista à TV Record em 2010, ano do centenário do Corinthians, colocou a culpa da derrota no calor de Teresina e no gramado do Albertão.

As gozações foram inevitáveis. Afinal, um grande clube havia perdido para um pequeno. Davi contra Golias. Antes mesmo de findar o jogo, no estádio Albertão, um torcedor gritou a Casagrande que "o gol é do Mocambinho", fazendo alusão ao gol de Hélio Rocha e ao bairro da zona norte de Teresina (Inaugurado em situação lastimável em dezembro de 1982 pela Cohab-PI) que este jogador morava. A imprensa paulista não perdoou e também caiu em cima do alvinegro. O jornal Folha de S. Paulo, por exemplo, brincou ao extremo com o resultado da partida. Foi desde os chutes de Sócrates no jogo até o vício de cocaína ("pó branco") do atleta Casagrande.

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O humor ácido da coluna de Arapuã (Pseudônimo do jornalista Sérgio Andrade)
sobre o jogo Tiradentes 2 x 1 Corinthians no estádio Albertão.
(31 de janeiro de 1983 / Folha de S. Paulo)

O Tiradentes, nem um pouco preocupado com o Corinthians, fixou-se nos próximos jogos: contra Fluminense no Albertão, e contra o Fortaleza no Castelão. O tricolor das Laranjeiras passava por uma crise e estava com pouco dinheiro no caixa. Até aquele momento só havia marcado um ponto na competição. Treinou no Lindolfo Monteiro esperando bater o Tiradentes. Mas, a exemplo do Corinthians, o Amarelão venceu a equipe carioca por 1 a 0. Outra vez Sabará cobrando pênalti.

A equipe da Polícia Militar estava entusiasmada com as duas vitórias sobre times grandes do país e os quatro pontos ganhos (Antes da Copa do Mundo de 1994 a vitória valia dois pontos). Sem falar que ocupava a 3ª posição do grupo D. Pelo regulamento, os três primeiros colocados passavam direto para a segunda fase. Os quartos colocados de cada grupo se enfrentavam em uma repescagem com sistema de mata-mata em jogos de ida e volta.

Um problema, no entanto, preocupou o técnico Alberino de Paula. Durante a partida contra o Fluminense, o goleiro Batista, titular absoluto da equipe, se machucou. Vários exames e sai o laudo do médico Grimário de Oliveira: Batista sofreu uma fratura no dedo anelar da mão direita e estava fora da primeira fase da Taça de Ouro. O substituto era o goleiro reserva Neto (Leia o box abaixo). Viajou prontamente com o grupo em um ônibus fretado para Fortaleza já sabendo que seria o titular.

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Alguns jogadores ficam conhecidos nem sempre pelas glórias. É o caso de Neto, goleiro do Tiradentes que sofreu os 10 gols do Corinthians em 1983. Honestílio Dias Neto nasceu na cidade de Luzilândia (PI) em 12 de fevereiro de 1958 (Curiosamente, a goleada de 10 a 1 veio faltando três dias para o seu aniversário!). Iniciou atividades no futebol amador com a seleção da cidade. Pouco depois foi para o juvenil do Flamengo, em Teresina, onde se tornou atleta profissional do clube. Transferiu-se em 1982 para o Tiradentes sendo campeão estadual, e em 1983, depois da Taça de Ouro, foi parar no Auto-Esporte, onde também conquistou o título do Campeonato Piauiense. Abandona o futebol para se dedicar exclusivamente aos estudos. Atualmente, quase sessentão e com esposa e filhas, Neto trabalha no serviço público tendo sido aprovado em vários concursos para o cargo de Assistente Administrativo.

Chega o dia do jogo. 06 de fevereiro, estádio Castelão. O Tiradentes abre o placar logo aos 7 minutos com a cabeçada de Luís Sérgio após cruzamento de Walter Piauí. Neto fazia boa exibição no gol do Amarelão até que Adílton, do Fortaleza, sofre uma falta na intermediária a dois minutos do fim do primeiro tempo. O meia Roner cobra fraco e a bola passa por debaixo das mãos do goleiro do Tiradentes. "Frango incrível", diz o locutor Léo Batista no vídeo abaixo. Embora o empate fora de casa tenha sido um bom resultado, a falha custara um ponto à equipe.

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Gols da partida Fortaleza x Tiradentes no Fantástico (TV Globo).
(06 de fevereiro de 1983 / Voz: Léo Batista).

Segundo confronto: cerveja, noite paulistana e goleada.

Os jogadores estavam com o moral alto depois dos últimos resultados e o 3º lugar no grupo. Mas desde o início a imprensa e a torcida não acreditavam na vitória da equipe em São Paulo diante do Corinthians.

O Corinthians estava empolgado após vencer, no Morumbi, o CSA por 4 a 2. Nem mesmo a rixa entre Casagrande e o técnico Mário Travaglini, que vetou o jogador para a partida, tirou o ânimo da equipe. Os jogadores estavam focados na partida diante do Tiradentes.

Os atletas da equipe piauiense chegaram à capital paulista um dia antes do jogo. Chama a atenção o depoimento do goleiro Neto ao jornalista Milton Neves no site do Terceiro Tempo, o qual é reproduzido na íntegra aqui.

"O Tiradentes tinha um time muito jovem em 1983. E muitos de nossos jogadores, entusiasmados com a classificação antecipada para a segunda fase do Brasileirão, viajaram relaxados para São Paulo. Chegamos à capital paulista um dia antes do jogo. Ficamos em um hotel bem no centro. Vários jogadores saíram do hotel para conhecer a noite paulistana e só voltaram de manhã. Eu mesmo fiquei na sacada do hotel, no último andar, tomando minhas cervejinhas.
Na partida, por incrível que pareça, saímos na frente com um gol de pênalti do Sabará. Mas não contávamos com um fato que nos prejudicou bastante: por ordem de pessoas ligadas ao Corinthians, o gramado do Canindé foi todo molhado. Para quem havia passado a noite anterior quase sem dormir, ficou difícil correr após os 25 minutos de jogo. Nosso preparo físico ruim foi decisivo para o resultado. Para se ter uma ideia, antes do primeiro tempo acabar, meus zagueiros não conseguiam sequer bater os tiros de meta".

Por partes. Em primeiro lugar, o Tiradentes não estava classificado antecipadamente. O jornal O DIA, de Teresina, deixava claro, um dia antes da partida, que o clube "se encontra em boa posição para alcançar a classificação". E olhando a tabela do grupo D se constata facilmente que ainda restavam três partidas (Contra Fluminense, Fortaleza e CSA) e seis pontos em disputa. Portanto, era impossível estar classificado àquela altura.

Mas parece que as demais histórias aparentemente convergiam com o que foi visto na partida do dia 09 de fevereiro. O próprio presidente Antônio Bento Vieira confirmou ao jornal O DIAno dia seguinte ao jogo, que os "diversos jogadores piauienses se deixaram deslumbrar pelo ambiente da capital paulista, que pouco deles conheciam, e isso influenciou negativamente sobre o ânimo da equipe". O depoimento está ligado com as saídas na noite paulistana e o regresso pela manhã, o que dá a ideia de que pouco ou nada descansaram e foram para a partida sem condições físicas adequadas.

Também no mesmo jornal o técnico Alberino de Paula informava que o campo estava pesado e cheio de lama. A história parece convergir também com a do goleiro Neto: o gramado do Canindé havia sido molhado minutos ou horas antes. E como muitos não haviam descansado bem, ficou difícil aguentar o ritmo do jogo.

Embora fossem justificativas plausíveis, as cervejinhas e a noitada revelavam o descaso com a partida. Repetindo: o clube ainda não estava classificado. Sem contar que Alberino de Paula afirmava a todo instante quando chegara ao Aeroporto Santos Dumont que seu time estava com excesso de confiança e muito indisciplinado taticamente em campo.

E, por fim, é preciso reconhecer o óbvio: que o Corinthians era melhor que o Tiradentes e, naquele dia, tinha mais condições táticas e técnicas de vencer. De fato foi o que aconteceu.

Incrivelmente o Tiradentes saiu na frente do placar. Sabará marcou mais uma vez um gol de pênalti na Taça de Ouro, após um lance em que Joniel é derrubado na grande área. A zaga corintiana imaginava que o atacante estava impedido (Através das imagens do jogo não é possível dizer se Joniel estava ou não impedido).

Depois daí o que se viu foi uma chuva de gols do Corinthians. Mas chamam a atenção dois deles. O árbitro Aristóteles Cantalice praticamente inventou um pênalti em Sócrates que originou o nono gol, algo típico nas partidas entre equipes grandes contra pequenas. E o décimo foi, em bom "futebolês", um gol de pelada.

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Lances e gols da partida Corinthians x Tiradentes.
(09 de fevereiro de 1983 / Voz: Luiz Gonzaga Noriega / Imagens: TV Cultura de São Paulo).

Eliminação

Ainda na primeira fase e após a goleada de 10 a 1, o técnico Alberino de Paula e o presidente Antônio Bento Vieira resolvem trocar o goleiro Neto por Gilberto, o terceiro goleiro da equipe. A atitude parecia colocar a culpa da derrota somente no arqueiro do Tiradentes, pois, nas partidas seguintes, ele era a única modificação no time que atuou contra o Corinthians.

Mesmo com a vergonhosa derrota no Canindé, o Tiradentes ainda se classificou para a segunda fase. Após a partida, perdeu no Maracanã para o Fluminense e venceu Fortaleza e CSA no Albertão. Terminou o grupo D na 3ª posição com 9 pontos ganhos.

Na segunda fase, porém, em um grupo que tinha Palmeiras (SP), Flamengo (RJ) e Americano (RJ), a equipe parou de vez e foi eliminada. Foram cinco derrotas e apenas um ponto ganho no empate contra o Americano no Albertão. Última posição no grupo M e a 27ª colocação geral no torneio.

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Ficha técnica do 1º jogo: Tiradentes 2 x 1 Corinthians;
Local: Estádio Governador Alberto Tavares Silva ("Albertão") - Teresina (PI);
Data: 30 de janeiro de 1983;
Torneio: Taça de Ouro 1983 (27º Campeonato Brasileiro de Futebol);
Árbitro: Wilson Carlos dos Santos (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro);
Auxiliares: Lineu Antônio de Lisboa Santos Junior (Federação Piauiense de Desportos) e Valdir Lima Vieira (Federação Piauiense de Desportos);
Renda: Cr$ 9.945.200,00;
Público: 41.265 pagantes;
Gols: Sabará aos 34'(Pênalti); Hélio Rocha aos 39'; Sócrates aos 73'(Pênalti);
Tiradentes: Batista; Valdinar, Wagner, Walter Maranhão e Valter Piauí; Zuega, Sabará, Hélio Rocha; Luís Sérgio (Carlinhos), Olivan (Durval) e Joniel. Técnico: Alberino de Paula.
Corinthians: Solito; Alfinete (Zé Maria), Mauro, Daniel Gonzales e Wladimir; Paulinho (Paulo Egídio), Sócrates, Zenon; Ataliba, Casagrande e Biro Biro. Técnico: Mário Travaglini.

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Ficha técnica do 2º jogo: Corinthians 10 x 1 Tiradentes;
Local: Estádio Dr. Osvaldo Teixeira Duarte ("Canindé") - São Paulo (SP);
Data: 09 de fevereiro de 1983;
Torneio: Taça de Ouro 1983 (27º Campeonato Brasileiro de Futebol);
Árbitro: Aristóteles Siqueira Campos Cantalice (Federação Pernambucana de Futebol);
Auxiliares: ;
Renda: Cr$ 10.656.000,00;
Público: 17.821 pagantes;
Gols: Sabará aos 18'(Pênalti); Sócrates aos 24'(Pênalti), aos 31', aos 42' e aos 78'(Pênalti); Biro-Biro aos 37'; Paulo Egídio aos 44' e aos 62'; Ataliba aos 49'; Wladimr aos 53'; Vidotti aos 87'.
Corinthians: Solito; Alfinete, Mauro, Daniel Gonzales e Wladimir; Paulinho, Sócrates e Biro-Biro; Paulo Egídio, Zenon (Eduardo Amorim) e Ataliba (Vidotti). Técnico: Mário Travaglini.
Tiradentes: Neto; Zezé (Geová), Valdinar, Wagner e Baiano; Durval, Sabará e Hélio Rocha (Etevaldo); Joniel, Zuega e Luís Sérgio. Técnico: Alberino de Paula.