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Mercado Público
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17/07/2015

Diz uma assertiva que se você quer conhecer a alma de uma cidade deve visitar primeiro seus mercados populares. Lá estão, entre outras coisas, as comida típicas, o artesanato local, os pescados da região e o homem citadino com todo o seu arcabouço cultural, histórico e linguístico.

O Mercado Público de Teresina, também conhecido como Mercado São José, Mercado Central ou Mercado Velho, se encaixa bem na descrição acima. Ainda hoje é possível encontrar por lá os mesmos produtos e práticas descritos por H. Dobal no seu Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina* como rapadura, linguiça, objetos de cerâmica e venda de animais.

Trata-se de uma das primeiras e principais construções da Teresina Imperial ao lado do Cemitério São José, da Igreja do Amparo, da Intendência Municipal, do Fórum (Luxor Hotel), da Secretaria de Fazenda (Edifício Sede do Ministério da Fazenda), do Quartel de Polícia, entre outras.

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O antigo Mercado Público de Teresina.
(1910 / Casa da Cultura / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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História sucinta do Mercado Público

A escolha do local se deu em 1854 durante a administração do presidente da província Antônio Francisco Pereira de Carvalho (1853-1855). O lugar escolhido era um terreno plano de frente para a Praça da Constituição (Atual Praça Marechal Deodoro, popular “Praça da Bandeira”) que fora concedido pela Intendência Municipal a Jacob Manoel D’Almendra**. O espaço da futura edificação atendia às necessidades do comércio da cidade, pois ficava bem próximo ao Rio Parnaíba sendo ideal para o imediato desembarque e estoque dos produtos que abasteceriam a capital.

Era uma das obras mais importantes da cidade uma vez que sua construção definitiva regularizaria as práticas de comercialização dos gêneros alimentícios e de outros bens. Evitaria, assim, a venda nas ruas de carne seca e carne verde*** (Eram proibidas pelo Código de Posturas Municipais vigente na época, pois não tinham higienização e conservação adequadas), o aumento abusivo nos preços de produtos muito consumidos na época pelos teresinenses como a farinha de mandioca, e outras irregularidades.

Sua conclusão, no entanto, demorou e teve elevado custo. O presidente da província Frederico de Almeida e Albuquerque (1855-1857), por exemplo, julgando que as obras demorariam muito e não conseguiria deixar sua marca na cidade, decidiu pela paralisação delas. Boa parte dos tijolos usados nas pilastras do Mercado Público foi, então, reutilizado na construção do Estabelecimento dos Educandos Artífices. O mesmo governante, em 1857, levou a leilão a obra cujo arremate ficou por conta de Manuel de Azevedo Moreira de Carvalho (Pai de Gregório Taumaturgo de Azevedo, governador republicano do Piauí entre 1889 e 1890), quem deveria se responsabilizar por concluí-la.

Entre paradas e retomadas das obras, entrou em funcionamento em 1858, mas subutilizado e servindo para outros fins como um equivocado depósito de cal próximo aos gêneros alimentícios. E nesse meio tempo houve de tudo: infiltrações, rachaduras, serviços mal feitos e suspeitas de superfaturamento. Mesmo em atividade, em 1885 ainda não estava totalmente concluído. Nesse mesmo ano foram erguidos novos alicerces de alvenaria de pedra e tijolo. Em 1888, a edificação passou definitivamente para as mãos da Intendência Municipal e já nessa época se encontrava em mau estado de conservação e segurança.

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O antigo Mercado Público de Teresina.
(s/d / Casa da Cultura / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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Estrutura e ambiente

A estrutura original do Mercado Público era similar a das primeiras edificações de Teresina: paredes grossas, arcos em estilo românico sendo nove voltados para a Praça da Constituição (Praça Marechal Deodoro) e mais quatro nos lados direito e esquerdo, pátio central, e corredores externos e internos. Em 1864, durante a administração do presidente provincial Antonio Sampaio de Almendra (1863-1864), foram construídas ainda onze salas para o funcionamento de açougues em uma tentativa frustrada de centralizar ali toda a venda de carne da capital.

O ambiente do lugar no século XIX lembrava, grosso modo, as antigas marchés (feiras) francesas. Dentro estavam vários tipos de comerciantes vendendo ou trocando as mais diferentes mercadorias. No lado de fora e ao redor, ficavam as escravas que exerciam atividades de quituteiras e quitandeiras. A polícia frequentemente visitava o local para fiscalizar os preços dos produtos, sendo comum efetuar ali alguma prisão.

Do período republicano aos dias atuais, o local foi se tornando pequeno demais tendo que ser ampliado e, paulatinamente, governos e permissionários foram descaracterizando bastante a edificação. Tanto que, atualmente, quase nada lembra a antiga estrutura. Porém, com um olhar aguçado é possível notar que alguma coisa havia restado do velho mercado imperial: as madeiras trabalhadas, os tijolos prensados, a feitura da argamassa, os alicerces, enfim, tudo aquilo que fora realizado com o esforço dos trabalhadores livres e dos escravos negros****, inicialmente sob o comando do mestre de obras português João Isidoro França, evidenciando toda uma expressão artística, mental, histórica e cultural de uma época ou quiçá de um povo.

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Platinotipia com a vista parcial da Praça Marechal Deodoro e de alguns dos primeiros edifícios da Teresina do século XIX.
O Mercado Público está no lado esquerdo, parcialmente cortado na imagem.
(1910 / Casa da Cultura / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: G. Mattos)
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Destruindo o pouco que restou

Faz algum tempo a Prefeitura Municipal de Teresina (PMT) resolveu definitivamente mexer no Mercado Público como parte do projeto de revitalização do Centro. A todos foi dito que seria uma “restauração” visando recuperar o aspecto arquitetônico original que tinha no século XIX. A empreitada, porém, foi desastrosa.

Em abril de 2015, o arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho divulgou em O Berrante (Periódico presente em um perfil seu de uma rede social) que as madeiras retiradas do mercado - de árvores típicas da região como o ipê e a aroeira - viraram entulho na cidade vizinha de Timon. Olavo, que também é autor da obra Carnaúba, pedra e barro na Capitania de São José do Piauhy (Belo Horizonte: Ed. do Autor, 2007, 03 volumes), encontrou o material em uma marcenaria! É digno de mencionar o seu relato principalmente quando detalha o descaso com as peças do Mercado Velho.

Teresina! Na semana passada, informado por MFátima PS, deparei com esse amontoado de madeiras na calçada de uma marcenaria em Timon-MA. Com sambladuras de articulações, acabamentos a enxó, dimensões, tipos de madeira (ipê e aroeira) e cravos de ferro forjado configuram elementos estruturais de uma cobertura tradicional. No caso, removidas de uma edificação, não apenas das mais antigas (1854), quanto de maior relevância de sua original identidade: Mercado Velho.

A “restauração” desse imóvel pela PMT tem sido difundida como de notória relevância na preservação do seu patrimônio edificado [o da cidade]. Presume-se que o projeto para essa intervenção tenha reverenciado esses elementos. Mas, a identificação dessas peças, jogadas ao relento, adquiridas por um marceneiro, algumas já recortadas para a execução de móveis, revela que a intervenção em causa não considerou a importância das mesmas no contexto tipológico e documental da edificação.

A Prefeitura não levou em consideração a relevância histórica das referidas peças, as quais, de acordo com o arquiteto, “mereciam ser conservadas nos locais de origem" [...] e "as parcialmente comprometidas não deveriam ser desprezadas [...]” já que "agregam a referência documental para pesquisadores de técnicas construtivas tradicionais aqui praticadas; a importância museológica da estética artesanal; e a relevância didática ao público [...]". Por esse motivo, não se trata de uma simples “restauração” como se apregoa por aí. Trata-se de destruição e descaso feitos por governantes eleitos por voto popular que deveriam cuidar e preservar do patrimônio material de Teresina.

Às próximas gerações será contado o discurso de “restauração”. Na verdade, terá sido concluído dentro de algum tempo ou mais um outro mercado que, embora seja similar ao anterior, não será aquele mesmo do século XIX uma vez que este último já se foi com as sucessivas descaracterizações ao longo dos anos e quando a PMT pôs abaixo o pouco que restou deixando ao relento em Timon toda uma expressão artística, mental e cultural de uma época que se confundia com a própria história da capital.

A verdadeira restauração do Mercado Público teria priorizado os antigos elementos da edificação. É notório para muitos que o local e o seu entorno se encontra bastante degradado e que uma intervenção em sua estrutura, além de um bom aspecto, dará as condições necessárias de trabalho a muitos que lá estão. Mas, como já foi dito, a “restauração” municipal não privilegiou o antigo, ou melhor, não conseguiu harmonizar o antigo e o moderno. Nem mesmo buscou “salvaguardar o valor artístico da edificação”, frase presente de forma contraditória na página oficial da Prefeitura quando se sabe que peças de valor histórico foram simplesmente descartadas. O legado deixado pela gestão Firmino Filho para os teresinenses do futuro será o de ter dado o golpe de misericórdia em uma das primeiras construções de Teresina. 

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Uma das etapas das obras de "restauração" do antigo Mercado Público realizada pela Prefeitura Municipal de Teresina.
Nota-se a retirada da cobertura e de materiais do interior do prédio.
(Junho de 2015 / Acervo digital Teresina Antiga)
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* Escrito em 1952 e publicado apenas em 1992. Nesta obra, H. Dobal relata fatos pitorescos e reminiscências de sua infância, adolescência e fase adulta em Teresina sendo importante para os estudos da cidade nas décadas de 1930, 1940 e 1950.
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Jacob Manoel D’Almendra nasceu em Portugal, em 1796, na freguesia de Trindade, região de Trás-os-Montes. Chegou ao Piauí em 1804 junto com um tio. Consta que construiu fortuna como fazendeiro na vila de Campo Maior, em uma fazenda chamada São Domingos (A casa grande da fazenda foi tombada pela FUNDAC em 2001), embora se saiba que tenha se casado com Lina Clara de Castelo Branco, moça de família abastada. Sua influência era tão grande (Possuía patente de tenente-coronel e título honorífico de comendador) que adquiriu terrenos importantes em Teresina como os que foram edificados o Mercado Público e o atual Museu do Piauí, cujo prédio teve construção iniciada em 1859 (Foi concluído anos depois por sua esposa e filhos), mesmo ano de sua morte, sendo um dos primeiros a ser enterrado no Cemitério São José. Não coincidentemente, sua fazenda passaria para a jurisdição da vila do Livramento, depois redenominada José de Freitas em homenagem a José Rodrigues de Almendra da Fonseca Freitas (1865-1931). A cidade é um conhecido clã oligárquico dos Almendra Freitas cujos nomes são conhecidos da política estadual como os ex-governadores Jacob Manoel Gaioso e Almendra, Freitas Neto (Antônio de Almendra Freitas Neto) e Pedro de Almendra Freitas (“Pedro Maxixe”).
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O termo carne verde era empregado para designar a carne de animais recém abatidos e sem qualquer utilização de conservantes (Diferentemente da carne seca que era salgada para aumentar sua durabilidade). Por isso rapidamente estragava e deveria ser preparada e consumida de imediato. A expressão provavelmente remete a uma comparação grosseira e invertida do processo de amadurecimento das frutas.
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É de conhecimento que os escravos - e também os trabalhadores livres - do sexo masculino exerciam atividades de ajudante de pedreiro, carpinteiro e ferreiro, e a extração e o transporte de pedras, madeiras e barro para as obras da cidade de Teresina.
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Ajudaram para esta postagem:
# ANDRADE, Andreia Rodrigues de. A estrutura urbana de Teresina e seus primeiros prédios públicos. IN: Encontro de História Oral, 2014.

# ARAÚJO, Maria Mafalda Baldoíno de. Teresina: História, Memórias. IN: Cadernos de Teresina. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, n.34, novembro de 2002.

# CARVALHO, Genimar Machado Resende de. Construtores e aprendizes: cativos da Nação e educandos artífices nas obras públicas da construção de Teresina (1850-1873). Porto Alegre: FCM Editora, 2013.

# DOBAL, H. Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1992.

# O BERRANTE. Achando sem procurar. (por Olavo Pereira da Silva Filho). Publicado em 28 de abril de 2015. Acesso em 16 de julho de 2015.