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A arte de Fernando Costa
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04/04/2015 - Atualizado em 22/07/2015

Quem se depara com qualquer obra do teresinense Fernando Costa (1961-1987) logo se vê diante de algo no mínimo diferente. Além dessa singularidade, os trabalhos do artista são, na realidade, uma tentativa de dissecar a alma humana, demasiadamente perdida e esquecida em um mundo que se afunda cada vez mais quando valoriza o material.

Infelizmente sua obra encontra-se dispersa e pouco preservada. Exemplo cabal disso é o painel Apocalipse, finalizado em 1982. Diz-se que a tela teria sido presenteada pelo artista a Clóvis Moura (1925-2003). Percebendo a grandiosidade dela, o escritor a doou anos atrás ao Museu do Piauí com a condição de que fosse visível a todos que ali visitassem. A iniciativa de fixá-la na parede do museu foi do artista plástico Gabriel Archanjo.

No entanto, um dos últimos secretários executivos do Sistema Estadual de Museus do Piauí julgou que a obra era "feia" e resolveu tirá-la da parede do museu. Um verdadeiro ato de ignorância e descaso com a memória, a arte e a cultura. Até a data desta publicação, o quadro encontrava-se guardado no depósito do Museu do Piauí junto com outro de Fernando Costa.

As linhas a seguir são uma tentativa de elucidar o artista e chamar a atenção para a importância dos trabalhos de Fernando Costa. Os textos abaixo são uma compilação de escritos de quatro autores diferentes sobre ele. Todos foram publicados no antigo site Miridam.

O primeiro texto, de Kleber Lima, é uma biografia do artista teresinense. Já os de Paulo H. C. Machado e Clóvis Moura indicam a grandiosidade, dimensão e importância de se preservar e reunir todo o material de Fernando Costa. Por fim, Gilbert Chaudanne analisa minunciosamente um quadro específico do artista sob a ótica de que "os desejos nos enganam", a vida humana é trágica, um eterno paraíso-inferno.

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Fernando Costa.
(s/d / Acervo particular de Hercilene Costa/Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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Fernando Costa *

KLEBER LIMA DOS SANTOS

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* O texto a seguir foi publicado pela primeira vez no antigo e atualmente desativado site Miridam. As linhas abaixo foram escritas por Kleber Lima através de uma entrevista concedida a ele, em 2009, por Hercilene Costa, irmã de Fernando Costa.


Fernando Antonio da Silva Costa nasce em maio de 1961, em Teresina. De uma família de seis irmãos. O mais novo entre os filhos homens. Oriundo de uma família de classe popular, residiu em Teresina no bairro Primavera desde os quatro anos de idade. Demonstra ainda muito jovem desenvoltura com o desenho. Riscava calçadas com cacos de telha e pedaços de tijolos. Talvez pelo singular potencial imaginativo possuísse algumas dificuldades na escola. A escola que quase sempre embota a imaginação da criança em vez de estimulá-la.

Havia na Unidade Escolar João Clímaco D'Almeida – localizada na esquina da Rua 13 de Maio com Avenida Campos Sales – um painel de sua autoria, mas já se fora com o tempo. Suas atividades profissionais como desenhista iniciam-se durante seus estudos no Colégio Andreas. Começa a trabalhar na gráfica do Andreas fazendo ilustrações de apostilas do curso regular. Trabalha nesta época com Cineas Santos. Firmam uma parceria e montam uma gráfica, juntando-se também a Albert Piauí. Nessa época, final da década de 1970, sua produção é intensa. Comercializa alguns trabalhos, no entanto, os poucos ganhos são investidos quase que exclusivamente com materiais de trabalho para novas produções. Entrega-se à pintura e à gravura incondicionalmente.

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Fernando Costa em seu ateliê de trabalho.
(s/d / Acervo particular de Hercilene Costa/Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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Participa de várias exposições coletivas em vários centros culturais brasileiros. Ganha alguns prêmios nas categorias de desenho, gravura e pintura. Recebe indicações para ocupar cargos na Prefeitura Municipal de Teresina, mas recusa, não se deixando deslumbrar pelas facilidades advindas da ocupação de um cargo público. Havia muita ânsia de produção e desejo de liberdade e talvez não se vislumbrasse apegado a rotinas e cumprimentos burocráticos. Tinha dificuldades de comercializar seu trabalho tanto por uma natural inaptidão em “acertar preços” quanto pelo forte impacto de sua arte. O impressionante e sempre elogiado valor cultural de sua obra quase sempre não era acompanhado pela absorção (compra) de seus trabalhos. Apesar de não ser intuito desse texto lançar comentários sobre o impacto psicológico desse fato na vida de Fernando Costa, presume-se que isso tenha causado ao jovem artista interrogações sobre a verdadeira importância de sua obra.

Assim como algumas grandes obras, a de Fernando Costa sofre essa inadaptação temporal quanto à interpretação e à recepção, e a própria obra em si parece movida, entre tantos outros elementos originais expressos com imensa violência interior, por essa recusa de fazer-se facilmente “digerida” por quaisquer gostos medianos e em voga na sociedade.

Uma das características mais ressaltantes da obra de Fernando Costa, realizada com apurada técnica de expressão e inteligência pictórica, são os seres humanos e animais destituídos de pele (como se fora totalmente esfolada), destacando as poderosas contorções das fibras musculares dos corpos, num ambiente sempre agônico e mutante (O espetacular painel “Apocalipse” é um genial exemplo). Esse fator advinha das constantes leituras de livros de biologia e visualização de atlas do corpo humano estudados, entre tantos outros assuntos, com afinco.

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Fernando Costa.
(s/d / Acervo particular de Hercilene Costa/Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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Sua ida a São Paulo, na época com 23 anos, acontece após o casamento e com o objetivo de acompanhar a esposa em seus estudos de mestrado, assim como criar a oportunidade de divulgar seu trabalho em um grande centro cultural. Vale ressaltar que pouco antes tinha feito exposições bem sucedidas no eixo Rio/São Paulo, o que também o motivou a encarar a mudança de endereço. O casamento dura pouco e, após a separação, sua esposa foi morar em Brasília e Fernando fica em São Paulo. É um período obscuro na sua vida, cujas informações exatas são difíceis de recolher dada a omissão de informações sobre seu próprio estado psicológico à família (talvez apenas poupando seus familiares de maiores preocupações).

Volta a Teresina trazendo alguns de seus trabalhos, deixando outros. Fernando Costa está visivelmente abalado e perturbado. Sofre com uma poderosa depressão, o que não quer dizer que se distanciou da pintura e de seus outros trabalhos com artes plásticas. A arte o acompanha sempre. Em março de 1987, Fernando Costa suicida-se.

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Fernando Costa.
(s/d / Acervo particular de Hercilene Costa/Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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Os trabalhos de Fernando Costa estão concentrados, quase que em sua maioria, na casa de sua família, no bairro Primavera na cidade de Teresina (onde também residiu quando vivo), mas há vários outros trabalhos seus dispersos com outras pessoas, tais como Cineas Santos (Na Oficina da Palavra há dois quadros expostos), e Alcides Filho (que possui uma série de trabalhos sobre a temática da natureza).

Quanto a instituições públicas ligadas à cultura, a Casa da Cultura e o Museu do Piauí, em contribuições tímidas, também possuem trabalhos de Fernando Costa. Espera-se ainda que à sua obra seja destinado um espaço público de bom nível e de visitação contínua, dada a originalidade e o valor cultural que, indiscutivelmente, ela possui.

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Talento e rebeldia

PAULO HENRIQUE COUTO MACHADO


O acervo de obras do artista plástico piauiense Fernando Costa ainda aguarda uma análise da critica especializada, após vinte e dois anos, desde a sua morte. As suas pinturas, desenhos e gravuras representam uma expressiva contribuição à história das artes plásticas, no Brasil.

O artista plástico tinha consciência do seu talento e, por essa razão, não fez concessões às exigências estéticas impostas pelo mercado de artes. Inovador, foi receptivo às experiências das vanguardas. Exerceu uma severa autocrítica e sempre esteve alerta para repudiar os elogios de conveniências. Por isso, manteve-se distante dos círculos de badalações e da mídia. Para aprimorar a sua técnica, desenhava compulsivamente. Lia tudo que lhe caía às mãos sobre artes plásticas e mantinha-se informado a respeito dos valores estéticos reais e dos modismos de circunstâncias.

Criou vários ciclos estéticos a partir de experiências cromáticas e da recriação de formas. Desenvolveu, com habilidade, uma nova concepção de espaço.

Produziu uma série de óleos sobre tela, que denominou de Ciclo dos Generais, quando, em período histórico recente, os cientistas políticos analisavam “o processo de transição democrática”. As obras desse ciclo registram as dores clandestinas das vítimas dos tempos blindados.

Os escritores piauienses da Geração Pós-69 devem ao artista plástico as imagens criativas que ilustraram seus textos, em livros e cartazes, editados fora do circuito convencional. Por essa razão, proponho a seus integrantes somar esforços para que as obras do artista plástico sejam reunidas e catalogadas, a fim de viabilizar uma análise da crítica especializada e, também, para possibilitar a imprescindível preservação desse legado cultural às gerações futuras.

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Fernando Costa e Mestre Dezinho.
(Janeiro de 1980 / Acervo particular de Hercilene Costa/Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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Fernando Costa *

CLÓVIS STEIGER DE ASSIS MOURA

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* Texto escrito pelo sociólogo e poeta piauiense Clóvis Moura (1925-2003) em decorrência da chegada de Fernando Costa à cidade de São Paulo, provavelmente para expor seus trabalhos.


A obra de Fernando Costa é desconcertante na medida em que ela foge, de um lado, ao convencional, e, de outro, às diversas escolas e tendências de vanguarda atuais. Realiza as visões do seu universo através do óleo, xilogravura e de outras formas de expressão plástica de forma quase que explosiva, como se no seu centro uma bomba estourasse e as figuras se fragmentassem em conseqüência da explosão.

Piauiense, tendo de conviver com o cotidiano da tragédia anônima, este pintor de grande fôlego, gravurista de alto nível técnico e dono de uma sensibilidade quase febril, tinha de optar entre fazer uma pintura descarnada e naturalista ou uma pintura capaz de refletir essa realidade, mas avançando em direção a uma visão suprareal do mundo, transcedendo-a plasticamente. É o que este jovem mas experiente artista está fazendo. Jogando com elementos dessa realidade, caminha sempre em direção ao trágico. O seu mundo plástico é um Apocalipse ou um Juízo Final ordenados esteticamente, embutidos e submetidos a uma visão de esperança mesmo através de temas e símbolos que à primeira vista parecem negá-la. Um artista que, na sua solidão, conseguiu, moço ainda, expressar um universo pessoal por uma pintura em que as cores muitas vezes se chocam e outras se harmonizam funcionam como dínamos plásticos que sugerem o movimento que a pintura não possui.

Fernando S. Costa é um pintor que se realiza através de mitos e fantasmas mecânicos, das vozes misteriosas da floresta, dos seus duendes, da natureza que o envolve, mas, especialmente, dos homens que o cercam. Porque Fernando S. Costa chega ao humanismo pelas vozes trágicas do seu mundo plástico. E este humanismo, que se filtra nos interstícios da tragédia cósmica captada de maneira ordenada, é que conduz este artista de tão desconcertantes soluções. Há, em cada quadro seu, uma tragédia, volições de gênese dos seres e do universo, tendo, sempre, no seu centro, a dimensão do Homem eterno. Dissemos antes: jovem mas experiente. Experiência esta que se traduz na sua trajetória de aprendizado e realizações.

No momento em que ele se apresenta em São Paulo pela primeira vez, certamente chamará a atenção não só da crítica, mas também, e especialmente, de todos aqueles que viram e analisaram suas telas. Fernando S. Costa: um nome a ser anotado entre os mais substantivos criadores do Brasil.

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Fernando Costa ao lado de uma de suas telas.
(s/d / Acervo particular de Hercilene Costa/Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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O deus brasileiro de Fernando Costa
Comentários sobre um painel de 2,20 m X 1,50m
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GILBERT CHAUDANNE**

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* O painel de 2,20m x 1,50m mencionado é o quadro Apocalipse (1982).

** Texto publicado originalmente na Revista Presença (Teresina, nº5, Set. a Nov. 1982, Ano III, p.14-15) e escrito pelo artista plástico francês radicado no Brasil Gilbert Chaudanne. Em Teresina foi diretor da Aliança Francesa, professor de Literatura Francesa da UFPI, e professor de Língua Francesa no Centro de Línguas do Piauí.


Cada quadro de Fernando Costa é um grande livro – o livro da criação do mundo – porque a inspiração do Fernando está diretamente ligada às respirações elementares da carne, presença obsessiva do corpo humano e animal e dum corpo sem pele, deixando, assim, ao ar livre à musculatura como se esta fosse o desenho do destino humano debaixo da pele hipócrita. Fernando Costa faz voltar o homem às origens. E se já era um processo clássico de desnudar o homem dos farrapos da civilização (o nu como homenagem à beleza humana), Fernando vai mais longe, tirando não somente a roupa, mas também a pele, como se essa ainda fosse a última roupa, duma beleza puramente plástica, formal, pois falsa e que assim Fernando foi obrigado a rasgar esta pele para mergulhar mais profundo nos corpos e nos seus lagos de sangue.

E o que foi que Fernando Costa encontrou nesta viagem além da pele humana: anjos, cristalizações, adorações sangrentas, ritmos, gritos vermelhos, cochichos, desejos?

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Quadro Apocalipse.
(1982 / Museu do Piauí/Acervo digital Teresina Antiga / Autor: Fernando Costa)
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Fernando encontrou apenas o deus segurando suas máscaras animalescas para dizer sua dupla identidade: Abraxas, deus do bem e do mal intimamente casados em bodas sangrentas e assim não é mais possível perceber o que está do lado do bem ou do lado do mal. Não se trata aqui daquela bipartição do desejo sangrento com a lucidez cristalina, mas trata-se de uma força só vermelha, disfarçada, travestida, que brinca violentamente consigo mesma, com seus filhotes humanos e animais jogando uns contra os outros, e também fazendo-os copular, bicho com homem, homem com bicho numa luta amorosa e safada, isto para mostrar a presença absoluta da duplicidade divina dentro das criaturas. Estamos aqui longe de uma visão cristã do mundo, com sua luta de anjos bons e demônios. Aqui estamos num reino que não aceitou a bipartição em bem e mal. Isto é, um mundo de antes do pecado, mas também não se trata do éden, do paraíso Adão e Eva antes da queda, porque aqui não é um jardim, mas uma selva (também chamada lei do cão, do cão parido pelo deus duplo) segundo os princípios do prazer da carne e da morte da carne. Orgia sexual do homem copulando com os bichos, e, ao mesmo tempo, procurando matá-los; mostrando aqui também duplicidade do desejo, do prazer que pode aparecer como doçura de viver, mas que no fundo traz com ele o cheiro metálico da morte de faca-serrote e espada. Isto é o crime, e que assim nesse paraíso-inferno, estamos vendo o deus duplo (que está parindo perpetuamente do diabo, do bicho), trabalhando nas criaturas, brincando sadicamente de vida e morte – orgia de corpos esfolados de bichos contorcidos: beleza sangrenta e safada do desejo. Mundo pagão que fica reforçado pela presença dos índios soprando nas flautas gigantes dos rituais tupi-guaranis ou vestidos de peles de animais, porque o índio, ao contrário do branco cristalizado, não perdeu aquele sentido do deus duplo, gostoso e safado ao mesmo tempo. E é de notar que a indianização da força divina se reflete na representação do próprio deus que não deixa de lembrar um enorme cacique. E é de notar também que Fernando, desta maneira, abrasileirou o Abraxas grego, exacerbando ainda mais sua duplicidade até na própria sexualidade porque, se o deus consegue parir, ele é também fêmea, e sendo cacique já, ele é andrógino.

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Fernando Costa.
(s/d / Acervo particular de Hercilene Costa/Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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E mais: na parte inferior do painel, notamos a presença duma mesa, símbolo dos primeiros passos da civilização ocidental, e sobre esta mesa os instrumentos de tortura desta civilização: a televisão, o liquidificador, e na frente dela (a mesa) um homem pedalando sobre uma bicicleta complicada, num mar de vísceras (matriz dos bichos, placenta do deus duplo?), assaltado por outros homens aliados dos bichos e armados de faca-serrote, mas que mesmo assim parece fazer uma oferenda ao deus, ao cacique andrógino parindo do bicho-diabo, levantando um cesto de frutas-flores do mal, mostrando-demostrando assim sua fé masoquista no deus. Este personagem parece fazer ligação entre os homens-bichos ou os bichos-homens e o deus porque ele é o único a reconhecer, a adorar conscientemente o deus orgíaco, safado e sádico, os outros personagens sendo submissos pelos canais dos seus desejos sexuais e criminais a sede do esperma e sangue do deus.

E esta cena, com aquela mesa grande, lembra justamente a Cena mas uma cena ao avesso-satânica ou simplesmente pagã, e não é por acaso se naquela mesa encontramos alguns livros como Os Cantos de Maldoror que são verdadeiros evangelhos do mal. Mas não há nada de símbolos cristãos, e este mal não é satânico, mas simplesmente o mal do deus duplo que o carrega como uma mãe na sua barriga com todo o carinho duma mãe, porque este filho também faz parte do mundo e que finalmente o mal também merece carinho e que o deus macho e fêmea, parindo do mundo-cão, está além dessas fofocas humanas de bem e de mal porque ele só faz parir a vida-morte que uma só força bruta e alegremente imoral.

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Fernando Costa.
(s/d / Acervo particular de Hercilene Costa/Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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E do outro lado da mesa, há um homem de terno escuro, sem cabeça, que parece assim como um doutor no meio dos corpos esfolados, e que esse doutor pelo intermediário da sua fantasia de homem que sabe das mecânicas é como um desafio, aquele duma civilização – quer dizer – dum edifício sofisticado que iria contra a vontade nua e crua do deus-cacique-duplo porque assim o doutor com sua roupa, suas mecânicas, seus aparelhos, pode ser que conseguiria vencer o poder espermático e sangrento do deus, inventando uma magia metálica: mecânica (bicicleta) e eletricidade (televisão e liquidificador). E é por isso que o doutor de terno azul-escuro está sendo sacrificado como Prometeu porque ele quis roubar o saber, o fogo do saber ao deus, e criar assim a eletricidade: por isso que ele foi decapitado (ou pode ser que sua cabeça foi devorada pelos bichos-homens, servidores fanáticos de deus).

O que é de notar sobretudo nesta visão de Fernando Costa é que se trata aqui não apenas duma exploração das antigas mitologias indígenas e gregas mas também de uma verdadeira criação duma nova mitologia; porque o debate que o deus está instaurando está se fazendo aqui e agora. Aqui, neste Brasil de megalópolis elétricas e de índios amazônicos e agora, quer dizer, no século XX, com seu cheiro de apocalipse, suas revoluções morais e o crepúsculo do seu cristianismo.

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Fernando Costa.
(s/d / Acervo particular de Hercilene Costa/Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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E o Brasil, terra sincrética por excelência, facilita o nascimento dessa nova mitologia, já esboçada por Nietzsche, Hesse, e ilustrada por Carlos Santana, Jorge Mautner e Sousândrade. Esta mutação do mundo ocidental-cristão está se fazendo através da ressurreição dos mitos pagãos antigos, mas sendo reatualizados no mito brasileiro moderno que será a verdadeira identidade nacional.

É isto que Fernando Costa está fazendo: ele inventa ou descobre o deus brasileiro.

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Premiações/Exposições de Fernando Costa

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1976. Coletiva inaugural da Galeria Desembargador Cromwel de Carvalho (Teresina/1976); Coletiva na Galeria ENCETUR-GARDEN, Ce. (1976). Individual na Galeria Desembargador Cromwel de Carvalho (Teresina/1976);

1977. II Salão de Artes Plásticas (1977, 78 – prêmio em desenho); I Salão da UFPI (1º Prêmio em desenho – 1977);

1978. Coletiva de artistas piauienses no Rio Grande do Sul (1978); Coletiva de artistas piauienses e pernambucanos no Theatro 4 de Setembro (Teresina/1978); Projeto Arco-Íris: reunião de artistas piauienses e maranhenses (Rio de Janeiro/1978); Coletiva de artistas piauienses (Brasília/1978); I Encontro com a Cultura Brasileira (1978);

1979. Estudos de bico-de-pena com Marcos Cremonese e de gravura em metal com Antonio Thyrso (Teresina/1979); Coletiva no Centro de Convenções do Piauí (Teresina/1979); Individual na Galeria UM'DART (Teresina/1979);

1980. Salão Nacional MAM (Rio de Janeiro/1980); Poster Brigad (Califórnia - Estados Unidos/1980);

1981. II Mostra de Desenho Brasileiro - Teatro Guaíra (Curitiba/1981); VII Salão de Artes Plásticas do Piauí (1º Prêmio em desenho) - (Teresina/1981); 38º Salão Paraense (Prêmio em desenho) - (Curitiba/1981);

1982. I Salão Nacional de Humor do Piauí (Teresina/1982); Salão Nacional de Artes Plásticas do Ceará (Convidado especial) - (Ceará/1982);

1983. Coletiva do Caeser Paker Hotel (Rio de Janeiro/1983);

1984. Salão Santo André (São Paulo/1984); "Cuiabá uma cidade como você imagina" (Cuiabá/1984);

1985. Artista brasileiro pela Folha de São Paulo; Prêmio Shanvinho (Prêmio Intinerário) - (Brasília/1985);

1986. Salão de Artes de São Paulo (1986).

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Anverso e verso do quadro Sobreviventes, nós vivemos.
(27 de outubro de 1978 / Museu do Piauí/Acervo digital Teresina Antiga / Autor: Fernando Costa)
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