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As Diretas Já! em Teresina
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18/03/2015

A Ditadura terminou como havia começado: de maneira atávica, seguindo os interesses das elites gananciosas do Brasil. Se em 1964 marchou-se sem parar no país inteiro, seja apoiando as Reformas de Base de João Goulart, seja contra elas através da Marcha da Família com Deus pela Liberdade denunciando a ameaça comunista, de 1983 a 1984 também marchou-se sem parar por aqui. Dessa vez a população pedia eleições diretas para Presidente da República. Era o apogeu do movimento que passou para história como Diretas Já!Movimento pelas Diretas ou, simplesmente, Diretas.

O retorno do direito à liberdade de expressão garantida em 1979 e a vontade de escolher um representante nacional na Presidência da República mexeram muito com o sentimento popular dos brasileiros. Comícios se multiplicavam em todo o país mostrando para a linha dura dos militares e para os civis que os apoiavam que havia chegado a hora de mudar.

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Ulysses Guimarães fala ao público na Praça do Marquês.
(13 de fevereiro de 1984 / Acervo particular de Kenard Kruel / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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As maiores manifestações no estado do Piauí aconteceram em Teresina. A primeira foi em frente ao Palácio de Karnak no dia 26 de junho de 1983. Outras mais surgiram no centro da cidade, uma delas na Praça Pedro II e nas escadarias da Igreja São Benedito. A maior de todas, no entanto, foi a do dia 13 de fevereiro de 1984 na praça Marquês de Paranaguá, bairro Marquês, localizado na zona norte da capital piauiense. Ulysses Guimarães (PMDB), Luís Inácio “Lula” da Silva (PT), Doutel de Andrade (PDT) e o jornalista José de Freitas Nobre juntaram-se a outras lideranças políticas do Piauí naquele que foi maior comício a favor das Diretas Já! no estado. Mais de 20 mil pessoas acompanharam as falas dos presentes com direito a aplausos e gritos a favor do movimento.

O grande comício do Marquês foi organizado pelo Comitê Estadual Pró-Diretas, formado por integrantes da sociedade civil organizada e outros mais como membros da OAB e do sindicato dos professores do Piauí (APEP). O grupo de docentes ficou responsável, entre outras coisas, de enviar telegramas aos parlamentares solicitando o apoio irrestrito à Emenda Dante de Oliveira. O jornal O Dia (Edição 26 de abril de 1984) dava a notícia de que o comitê organizou uma grande paralisação a favor das Diretas no fatídico e decisivo dia 25 de abril de 1984 onde 3 mil professores se revezavam na sede do sindicato, no centro de Teresina, em uma vigília cívica acompanhando a votação que se fazia em Brasília.

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Manifestação a favor das Diretas Já na Praça Pedro II.
(1983 / Acervo particular de Paulo Gutemberg / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: Paulo Gutemberg)
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O Comitê Estadual Pró-Diretas também contou com a ajuda do DCE da UFPI (Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Piauí) através de seu presidente, Marcos Lopes, que um ano antes havia ganho as eleições da entidade quando sua chapa, a Viração – formada por partidários do PT, do PC do B e simpatizantes –, derrotou a chapa Travessia.

Na época das Diretas o governador era Hugo Napoleão do Rego Neto, eleito por voto popular em novembro de 1982 (Primeiro pleito estadual depois do golpe de 1964) para o mandato 1983-1986. Ele e o ex-governador Lucídio Portella - indicado pelos militares para governar o estado no período 1979-1982 - pertenciam à ARENA e após o fim desta ingressaram no governista PDS - "o partido da Ditadura" - que demonstrava desinteresse na Emenda Dante.

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Grande comício a favor das Diretas Já! na Praça do Marquês.
(13 de fevereiro de 1984 / Acervo particular de Kenard Kruel / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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“Lucidão”, como era chamado, ficou conhecido por perseguir seus adversários, principalmente médicos, professores, sindicalistas de oposição ao seu Governo e outros servidores públicos do estado. Em gesto autoritário, ameaçava com cortes nos salários, transferências ou mesmo demissão de funcionários públicos que, ao seu ver, atrapalhavam seu mandato e seus interesses. Famosas também eram as suas rixas com Alberto Silva, seu principal desafeto político, e com o PMDB.

O governo de Lucídio Portella fazia censura aos opositores, representados pelo PMDB, PT e PDT. Jornalistas como Deoclécio Dantas e Tomaz Teixeira – também eram deputados pelo PMDB – foram demitidos de seus cargos em seus respectivos jornais. Os meios de comunicação – os grandes jornais, as rádios e a televisão (TV Clube, a única existente no estado até 1986) – estavam todos a mercê do Palácio de Karnak. Ninguém da dita oposição da época podia sequer conceder entrevista que não apareceria, a não ser de maneira negativa.

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Kombi da APEP atingida por explosivo.
(1982 / O DIA / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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Como se não bastasse a censura prévia do governo Lucídio Portella, aconteceram ainda alguns fatos que aterrorizaram a capital. Durante as proximidades do pleito eleitoral de 1982, era dada a notícia de supostas ações terroristas em Teresina semelhantes a do Riocentro. No dia 11 de maio, por exemplo, uma bomba explodiu no Tribuna do Povo, jornal dirigido por Paulo de Tarso Tavares Silva – filho de Alberto Silva – de forte ligação com o PMDB e que fazia oposição ao governo estadual. Outra bomba foi descoberta dez dias depois em uma Kombi de propriedade da APEP, o sindicato dos professores do estado do Piauí. O órgão do magistério também fazia oposição ao governo Lucídio Portella tendo Wall Ferraz, inclusive, escrito depoimentos no jornal da entidade (Jornal do Professor).

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Multidão no comício pró-Tancredo na Avenida Antonino Freire.
(1984 / Acervo particular de Paulo Gutemberg / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: Paulo Gutemberg)
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É importante destacar também que muitos só eram opositores ao regime porque já não participavam mais do esquema político governista. Tomaz Teixeira, por exemplo, é deixado de fora do grupo oligárquico de poder no Piauí, representado nesse momento pelas famílias Portella e Almendra Freitas. Privado das mordomias que o poder lhe dava, passa a ser “oposição” e começa a denunciar rancorosamente os dois grupos em seu jornal. Devido à conjuntura favorável a Alberto Silva, uma das famílias – os Portella – decide apoiar o PMDB do político parnaibano. Tomaz Teixeira, então, cessa suas denúncias contra o grupo. A estratégia deu certo: Alberto foi eleito e Teixeira seria logo beneficiado quando, na condição de segundo suplente, ocuparia novamente o cargo de deputado estadual em 1987.

Houve também caso de gente em Teresina que se aproveitou da euforia das Diretas. O movimento, inevitavelmente, dava holofotes a quem aparecesse com mensagens de apoio. Muitos, na realidade, queriam só estar no palanque. O governador Hugo Napoleão, por exemplo, antes contra o movimento, sinaliza posteriormente apoio a Tancredo Neves e às Diretas. Já outros, bem mais espertos, demonstravam apoio, mas nos bastidores trabalhavam contra a Emenda Dante de Oliveira. Mero oportunismo. Estava claro, pelo menos para os bons entendedores, que o interesse nas eleições diretas era mais por outros motivos, certamente alheios aos anseios dos manifestantes Brasil afora.

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Grande comício a favor das Diretas Já! na Praça do Marquês
(13 de fevereiro de 1984 / Acervo particular de Kenard Kruel / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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O filósofo e professor Luiz Felipe Pondé, em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, ilustra um fato que pode ser comparado com a Ditadura e os oportunistas das Diretas. Explica ele em Os comitês da depuração que durante a ocupação nazista na França, lá pelos idos de 1940 a 1944, havia pouquíssima gente que realmente enfrentava os nazistas alemães. Esses combatentes formavam parte da chamada "resistência francesa". Terminada a II Guerra, expulsos os nazistas da França, restabelecida a ordem, percebeu-se logo a grandiosidade do evento histórico. Muitos franceses, então, passaram a dizer que eram da resistência. Tanta gente que se somados os parentes dos resistentes parecia ser a população inteira da França! No mesmo jornal, Pondé resumiria com uma frase essa tentativa de falsear a memória: "Passado o terror, todos [nós] viramos corajosos e éticos."

A Emenda Dante, como todos sabem, não passou. O presidente Figueiredo ordenou que a votação e as manifestações populares fora do Congresso não fossem transmitidas com grandes coberturas ao vivo pelas TVs e emissoras de rádio ao contrário do que aconteceria anos mais tarde com o impeachment do presidente Collor. Apenas pequenos takes ao vivo eram permitidos. Para manter a ordem do presidente Figueiredo, fazia a segurança do Congresso Nacional o autoritário e rude general Newton Cruz com o seu expressivo batalhão militar (o Comando Militar do Planalto).

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Manifestação a favor das Diretas Já! no Centro de Teresina.
(1984 / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: Raimundo Costa)
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Mesmo assim, foi possível saber quem teria votado contra ou a favor da emenda. E mais ainda os que se ausentaram dando várias justificativas, embora se conjecturasse a ausência porque tais políticos não queriam se comprometer negativamente nem com o partido e nem com a população. Dos nove deputados federais piauienses, três se ausentaram. Todos do PDS, que até aquele momento era contra a Emenda Dante e desejava mesmo era aprovar uma outra: a Emenda Figueiredo, que previa um Colégio Eleitoral para eleger o presidente da República em 1984 e eleições diretas só em 1988 - na prática, só aconteceram um ano depois.

Nem é preciso dizer que a emenda governista passou fácil no Congresso em junho de 1984. Afinal, ela garantia a transição democrática como queriam os militares e os civis que os apoiavam: lenta, gradual, segura e sem revanchismo.

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A lista dos deputados federais do Piauí na histórica votação
da Emenda Dante de Oliveira em Brasília, na noite de 25 de abril de 1984.

Tabela: Teresina Antiga