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Anedotas teresinenses
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02/07/2015

Histórias curiosas, intrigantes ou engraçadas que aconteceram na cidade seja no passado distante ou recente. Quando as ouvimos - muitas vezes de pessoas próximas (Tios, amigos, colegas, pais, avô ou avó etc.) -, as gravamos na mente se achamos que são interessantes. E ficamos a nos perguntar se são invenções ou se possuem algum fundo de verdade.

Essas histórias são chamadas de anedotas. Elas fazem parte do imaginário coletivo, do meio onde se vive, e se incorporam de tal forma que terminam por virar narrativas da cidade. Se são reais ou não, nunca saberemos ao certo, mas o que importa é que dizem muito sobre uma época. Revelam costumes, modos de pensar, lugares de sociabilidade e entretenimento.

Abaixo foram selecionadas algumas delas. Umas são cômicas e outras se tratam apenas de curiosidades.

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Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
a·ne·do·ta |ó|
substantivo feminino
Breve narração de caso verídico pouco conhecido; chiste.


Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa
a·ne·do·ta
substantivo feminino
(Do grego anékdotos) 1. Relato abreviado de uma particularidade histórica. 2. No uso mais comum, historieta de efeito cômico; pilhéria, piada.
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Ônibus do final da década de 1930 na Praça Rio Branco que era possível ser visto durante a década de 1960.
(s/d / Casa da Cultura / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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- Os antigos coletivos da década de 1960. Diziam que eram ônibus, mas tinham formato de caminhões - eram feitos a partir deles. Tão precários que os bancos para sentar se soltavam a cada manobra efetuada pelo motorista. Conta uma antiga piada - só podia ser! - que um homem recém chegado do interior entrou em um desses velhos coletivos que faziam linha para a zona sul com trajeto pela rua Paissandú, Praça Pedro II, Frei Serafim e depois seguindo pela Miguel Rosa. Os passageiros, a cada manobra, sempre se levantavam para que os bancos voltassem ao lugar. Mas o tal homem, certa vez, cansou de se levantar e ficou sentado quando o ônibus dobrou à direita na Miguel Rosa, ali no prédio do DER-PI. De alguma forma, não se sabia como, um banco prendeu seus testículos, para sua agonia, sendo que só se desprenderia na próxima manobra ainda bem distante. Um verdadeiro tormento.

- Um aviso, nada amigável e com erro de pontuação (Parênteses separando o verbo), no início da década de 1990, proibia os porcalhões de defecar na margem do rio Parnaíba. Não se sabe quem o pôs, mas quem o fez com certeza estava cansado da imundice e do mau cheiro. Ficava em um armado de concreto da Ponte da Amizade - nesta época ainda inacabada - quase no entrocamento das Avenidas Maranhão e José dos Santos e Silva, bem na beira do Parnaíba. Quem passava por ali automaticamente caía em gargalhadas ou em visível constrangimento. Algum tempo depois foi removido. Uma imagem, porém, existe para provar a história. Não se sabe quem tirou a foto para a posteridade.

- Por falar na Ponte da Amizade, dizia-se que era tanto dinheiro desviado nas suas obras que dava para construir outras dez pontes! E ainda há quem diga que se roubava pouco antigamente.

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Aviso na Avenida Maranhão no início da década de 1990.
(s/d / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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As obras inacabadas da Ponte da Amizade.
(1990 / Casa da Cultura / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: Paulo Gutemberg)
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- Quando a Seleção de Futebol da Lituânia veio a Teresina jogar um amistoso contra a Seleção Brasileira em 1996. Foi até o momento a última passagem da equipe canarinho na capital. E eventos assim sempre deixam histórias de reputação duvidosa. Depois de levar três gols de Ronaldo e marcar um gol - histórico para eles -, contam os comediantes amadores que os lituanos resolveram visitar o conhecidíssimo litoral nordestino. O problema é que Teresina não é banhada pelo mar. Um deles perguntava insistentemente, em inglês, pelas praias: “Beach? Beach?” (Pronuncia-se, mais ou menos, “bêtchi”). Ao passo que um cidadão entendeu: “Ah, Beth!”. E foi assim que, segundo o povão, os lituanos supostamente frequentaram a casa noturna de shows eróticos Beth Cuscuz.

- As diversas narrativas populares sobre o marginal Zezé Leão (1901-1956) que aterrorizou Teresina nas décadas de 1930, 1940 e 1950. Da oligarquia dos Arêa Leão, da cidade de Água Branca, era figura intocável e matou muita gente na capital e no interior. Eram tantas as histórias que não se sabia quais delas eram verdadeiras. Outras, de tão absurdas, ganharam o imaginário dos teresinenses. Exemplo disso é a história de que, certa vez, teria escrito o seu nome em um imóvel dando apenas tiros de revólver.

- As lavadeiras do rio Parnaíba. Da fundação de Teresina até a década de 1990 era muito comum vê-las ensaboando, batendo e torcendo roupas em plena Avenida Maranhão, no Centro da cidade. Para muitos eram a personificação do atraso e da pobreza de Teresina. Pela presença constante e histórica deveriam ter sido tombadas como patrimônio imaterial da capital, que nem as baianas do acarajé em Salvador. Ninguém teve essa ideia. Elas sumiram da nossa vista para sempre.

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Vista parcial do Centro, da Avenida Maranhão e do Rio Parnaíba.
Embaixo, no canto inferior esquerdo, as lavadeiras e as roupas secando ao sol.
(s/d / Acervo digital do IBGE / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: Aureliano Müller - "Foto Müller")
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- As cervejas de antigamente, que eram de poucas marcas, sendo as mais conhecidas a Brahma e a Antarctica. Os mais velhos diziam que tinham um sabor diferente. Segundo eles porque eram feitas com água proveniente do rio Parnaíba. Ninguém nunca comprovou cientificamente essa história dos nossos antigos cachaceiros.

- A antiga usina elétrica de Teresina. Funcionou com frequentes quedas de energia e durante mais de sessenta anos utilizou como combustível a queima de lenha (A madeira vinha das árvores próximas ao Parnaíba), do carvão vegetal e depois do óleo diesel. Quem a construiu foi a empresa alemã Siemens-Schuckertwerke e foi instalada na antiga localidade Veneza, na beira do rio Parnaíba, mais ou menos onde atualmente fica o prédio sede da Cepisa/Eletrobrás. Uma distribuidora a óleo diesel ficava no conjunto do Ipase (Monte Castelo) e fornecia eletricidade a alguns pontos da zona sul de Teresina. Os motores dessas usinas eram muito barulhentos e te doíam até os tímpanos quando funcionavam. Houve uma época em que elas encerravam suas atividades pontualmente às 10 da noite. Se alguém estivesse fora de casa depois dessa hora, ficaria completamente no escuro. Mas dificilmente você seria assaltado ou violado sexualmente. Outros tempos.

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Usina Elétrica de Teresina.
(1926 / Annuario Estatístico do Piauhy / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: “Teixeira ” - Tipografia Teixeira)
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- A época em que a TV Clube reinou como a única emissora em Teresina, de 1972 a 1986. Conta-se que havia queixas de todo o tipo. Pelo telefone alguém reclamou pela enésima vez e um atendente da emissora, sem titubear, mandou o telespectador mudar de canal. O jornalista Walteres Arraes, que trabalhou durante décadas na emissora, sempre negou a história. João Eudes “Bolinha”, no entanto, confirma a veracidade dela.

- As várias nomenclaturas culinárias presentes na cidade, que causam espanto prematuro ou risos aos desconhecedores, principalmente gente de fora do Piauí ou quando alguém de Teresina vai a outro estado do país. Exemplos: comer Maria Isabel (Não é convite sexual), pirão (Ninguém estava doidão), panelada (Não, não comemos panela!), pão massa grossa e pão massa fina (Respectivamente, pão francês e pão careca).

- Pegar bigu (Ou pegar uma bigu). Expressão muito usada em Teresina, pelo menos até um tempo atrás. Era quando o ciclista se apoiava na traseira de um veículo (Carro, caminhão ou ônibus) para ganhar impulso e velocidade sem fazer esforço. Às vezes acidentes e até mortes aconteciam e por isso a prática era proibida. Mas se alguém fosse pego no flagra não cabia apreender a bicicleta e nem mesmo aplicar uma multazinha (E nem dava, pois elas não têm placas!). Curiosamente, quem levava a penalidade pela infração era o condutor do veículo que muitas vezes até permitia a prática.

- Balula. Outra expressão que era muito usada em Teresina, principalmente na década de 1970. Significava cabelo no estilo afro, muito semelhante ao do cantor Tim Maia em início de carreira. A palavra era uma referência explícita ao atacante carioca Balula, que usava corte de cabelo assim. Jogou de 1972 a 1974 pela Sociedade Esportiva Tiradentes e não se sabe que fim teve.

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Na imagem ao lado, em pé: A rainha do Tiradentes, Joel Maneca e Carlota Maria de Carvalho (Miss Piauí 1972). Agachados: Caio Cambalhota (no Flamengo carioca) e Balula.
(07 de junho de 1972 / Acervo particular de Severino Filho / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: n/d)
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- Alberto Silva no Jô Soares Onze e Meia. Em 1988, o gordo saiu da Globo e foi apresentar um talk-show no SBT. Conta Arimathea Tito Filho, em O Dia, que uma das edições do programa, em 1990, teve a participação do então governador do Piauí. A entrevista foi um desastre. Alberto Silva disse que sua gestão havia construído uma casa com cobertura excelente para o plantio de hortaliças e, assim, o piauiense teria habitação e alimentação ao mesmo tempo. Em seguida deu como altos os seis mil cruzeiros de vencimento de uma professora (Quem viveu ou conhece alguém na época dos cruzeiros sabe muito bem que não dava pra nada essa merreca de salário). Não deu outra: Jô Soares e a plateia caíram em gargalhadas involuntárias. Para Alberto Silva valia tudo para eleger seu sucessor Wall Ferraz ao Governo do Estado, inclusive contar absurdos - como se não bastassem as versões incríveis para a falência do BEP em 1990. Deu motivos de sobra para que muitos alegassem que estava caducando. Alguém deveria resgatar essas “pérolas” nos arquivos do SBT na cidade de São Paulo para o bem do humor na política. Se estivesse vivo, Stanislaw Ponte Preta agradeceria.

- A água mineral York, que se vendia muito em Teresina. Tão importante que deu nome ao bairro Água Mineral, na zona norte, pois tinha alguma fonte ou fábrica que funcionou por um tempo ali. Contam as más línguas que revendedores irresponsáveis reutilizavam as garrafinhas e da seguinte maneira: colocavam água da geladeira e as revendiam. A empresa York ainda existe, mas a água mineral não.

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Publicidade da antiga água mineral York.
(1983 / Jornal O Dia / Acervo digital Teresina Antiga)
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- O teresinense Mário Faustino (1930-1962) morou até os nove anos de idade em uma casa que ficava de frente para a Praça Landri Sales (Praça do Liceu) até que se foi para residir em Belém do Pará. Em novembro de 1962, já poeta e jornalista, decidiu de uma vez fazer uma viagem que algum tempo adiara. Realizaria reportagens em Cuba e nos Estados Unidos como correspondente internacional do carioca Jornal do Brasil, devendo desembarcar em Nova Iorque no dia 28 de novembro. O voo 810 da Varig, porém, nunca chegou ao seu destino. O boeing colidiu com o Cerro La Cruz, pico bem próximo a Lima, capital do Peru, matando todos os 97 tripulantes. Por ironia do destino, o lugar onde ficava a casa de Mário Faustino se transformou em uma agência da Varig. Atualmente funciona o SEST/SENAT.

- As extensas filas do BEP em Teresina. Esperava-se por um bom tempo até que o caixa dizia que não havia dinheiro. Muitos desmaiavam com a notícia, principalmente as senhoras, pois estavam muitos meses sem receber. Eram tempos difíceis do segundo governo Alberto Silva (1987-1991). A oposição culpava o governador e este, por sua vez, culpava o presidente Collor. Os servidores públicos, porém, sabiam sem gaguejar onde estava o dinheiro: nas obras da Potycabana, do Pré-Metrô e do Navio/Barca do Sal ou nos bolsos de políticos inescrupulosos.

- O extinto bar Gelatti, na Avenida Frei Serafim. Lugar de encontro dos jovens que queriam quebrar diversos tabus e preconceitos da sociedade teresinense. Lá você encontrava mulher de minissaia e com blusa acima do umbigo, cabeludos, boas histórias...e cerveja gelada!

- As músicas estrangeiras de grande sucesso que tocavam nas escaladas dos telejornais da antiga TV Pioneira. Desde o primeiro ano de funcionamento da emissora (1986) até o início da década de 1990 era possível ouvi-las. Na edição do Jornal da Pioneira de 20 de julho de 1988 (Vídeo abaixo), por exemplo, os âncoras Laura Learth e Tony Trindade anunciaram as notícias do dia ao som de Fascinated, sucesso de 1986 do grupo Company B. Alguns telespectadores assistiam ao jornal mais para ouvir essas canções. Nessa época não havia internet, nem mp3 player ou celular de última geração para escutar suas músicas favoritas. O jeito era apelar para os toca-discos de vinil ("Radiola" para os teresinenses) e as fitas k7 (Cassetes) ou esperar que elas tocassem nas rádios e na TV.

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Escalada do Jornal da Pioneira (TV Pioneira).
(20 de julho de 1988 / TV Cidade Verde / Acervo digital Teresina Antiga).

- O doce de buriti em caixa ou envolvido em palha do buritizeiro e amarrado com fibras da planta. Muito comum na rodoviária de Teresina - tanto na antiga, que ficava na Praça Marechal Deodoro (“Bandeira”), como na atual - e nos diversos mercados populares e mercadinhos espalhados por toda a cidade. De sabor único, é impossível comer apenas uma porção. Só tem um problema: é muito oleoso (“Gorduroso” para os teresinenses) e exagerar no seu consumo significava contrair uma diarreia no dia seguinte.

- As patéticas rixas entre Alberto Silva e Lucídio Portella. Eram um saco e muitas atingiam o cúmulo do absurdo. Em uma delas, o então governador “Lucidão” se negava a chamar o maior estádio de futebol do Piauí de “Albertão”. Sempre o mencionava como “Olímpico”, embora nada disso tivesse.

- O antigo guaraná Tufy. Se o Maranhão tem o guaraná Jesus, nós tínhamos o Tufy. A fábrica ficava na Avenida Barão de Gurgueia. Mas eis que um dia a empresa que o produzia faliu. Pouco tempo depois o mesmo proprietário reaparece na cidade de José de Freitas com a marca Kero Refrigerantes prometendo até voltar com o Tufy. Ficou só na promessa. O caso é que ninguém pensou em vender o guaraná à Coca-Cola.

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Publicidade do antigo guaraná Tufy
(1982 / Jornal O Dia / Acervo digital Teresina Antiga).
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- As sessões pornôs do Cine Rex. Tinha para todos os gostos: nacional (Muitos eram da Boca do Lixo paulistana), internacional, produções ruins de doer, e até os doentios filmes de zoofilia. E com preços acessíveis, cartazes e letreiros ali pra todo mundo ver, em pleno centro comercial da cidade. O grande público era com certeza o masculino e embora digam que não, muitos menores de 18 anos ingressavam em uma dessas sessões, pois o lucro falava mais alto e a fiscalização era inoperante. Muita gente entrava sem pudor algum. Já outros, mais tímidos, demoravam mais e espiavam por todos os lados para ver se não havia algum conhecido que os flagrassem nas dependências do Rex. O mesmo valia na hora da saída.

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Em cartaz no Cine Rex, o filme Mulheres & cavalos (1987), do diretor Juan Bajon e estrelado pela atriz Márcia Ferro.
(1988 / Acervo particular de Paulo Gutemberg / Acervo digital Teresina Antiga / Foto por: Paulo Gutemberg).
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Ajudaram para esta postagem:
# ATANÁSIO, Francisco das Chagas O. Zezé Leão: narrativa e mito. Revista Tempos Históricos, vol.17, setembro de 2013.

# CUNHA, Paulo José. Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês. 4ª edição, Teresina: Oficina da Palavra, 2008.

# PIRACURUCA (SITE). Primórdios da iluminação elétrica em Teresina. Publicado em 20 de março de 2015. Acesso em 28 de junho de 2015.

# TITO FILHO, J. de Arimathea. Velho Piauí. O Dia. 04 de julho de 1991. ARQUIVO PÚBLICO DO PIAUÍ.

# E as diversas narrativas populares dos teresinenses contadas e recontadas ano após ano.